COPA DO MUNDO 2010 - ÁFRICA DO SUL
É mais que futebol

Há quem diga que é só um jogo, nada mais. Uma brincadeira, um despiste ao ócio ou mesmo um despropósito.
Há outros, porém, que enxergam além da redonda. Que entendem o futebol como um esporte único, muito mais que 11 contra 11.
Sou desses entusiastas, que compõem o segundo grupo.
Não é à toa que o futebol é estudado, por quem se propõe a decifrá-lo sob a ótica científica, como um dos poucos “fenômenos sociais totais” existentes no mundo.
Integra diversas culturas, povos e crenças, coloca todos em igualdade de condições e pode ser praticado em qualquer canto do planeta. Basta uma bola. A mais democrática modalidade esportiva, disparada.
Mas, no futebol profissional, a simplicidade do jogo é substituída pela complexidade das relações e das representações. Jogador é exemplo, time é identidade, seleção é país.
Uma partida não acaba no apito do árbitro tampouco se encerra nos limites do gramado. A seriedade que o futebol de alto nível demanda pode ser bem compreendida numa Copa do Mundo.
O exotérico técnico, Raymond Domenech, foi obrigado a explicar o vexame da França na África do Sul à Assembleia Nacional do país. Afinal, um time de futebol pode, sim, arranhar a imagem de uma nação. Franceses estão aí para provar.
Já o presidente da Nigéria, após fraca campanha de sua seleção na Copa, foi ainda mais rígido.
Desafiou as regras da Fifa, de não-intervenção governamental no esporte, e retirou o país de competições internacionais por dois anos, até reorganizar seu futebol. A política está sempre de olho na bola...
No Brasil, vimos Dunga renunciar a jovens talentos e craques incontestes em nome de um grupo fechado. Sem vaidades, à rédea curta. Como ex-jogador, sabia que futebol não é só futebol.
Engloba pessoas, sentimentos, pressões, competição – interna, inclusive. Romper o tal pacto de coerência com a convocação de Gansos e Ronaldinhos seria como armar uma bomba relógio. Semelhante à que estourou nas mãos de Domenech.
Entre franceses, nigerianos e brasileiros, apenas a comunhão da certeza que esse esporte imprevisível por excelência definitivamente não se limita à conquista – ou à perda - dos três pontos.
É simples, mas complicado, indecifrável. É mais que futebol.
- Postado por: Breiller Pires às 16h56
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