Esporte e política de mãos dadas

O filme Invictus, que estreou em janeiro no Brasil, conta como o primeiro presidente negro da África do Sul, Nelson Mandela, utiliza o rugby para tentar superar a segregação racial.
Recém libertado após 27 anos de prisão, Mandela luta contra o preconceito que ameaçava a liberdade e a igualdade no país, mesmo após o fim do regime do Apartheid.
Em 1995, a África do Sul sedia a Copa do Mundo de Rugby. Considerado “esporte de brancos”, a modalidade era desprezada pelos negros, que preferiam o futebol.
Aproveitando o apelo midiático do evento, Mandela apóia a seleção sul-africana de rugby , os Springboks, como instrumento político. Incentiva a prática da modalidade entre os negros e estimula a presença deles nos estádios durante a Copa.
Os Springboks conquistam o título, que passa a ser visto também como uma vitória do combate ao racismo. Apesar de otimista – já que a segregação racial, principalmente no esporte, ainda é bastante visível na África do Sul –, o filme é mais um exemplo de como esporte e marketing político muitas vezes se misturam.
No livro “Como o futebol explica o mundo”, o jornalista Franklin Foer desbrava vários países para retratar, entre outras coisas, como a bola pode rolar em torno de interesses políticos.
É o caso do futebol iraniano na década de 1920. Após o xá Reza Pahlevi assumir o poder e iniciar um processo de modernização e industrialização, o futebol, importado dos ingleses, virou símbolo da abertura econômica e política do Irã.
O entusiasmo persistiu até a década de 70, quando o governo do país fracassou em suas tentativas de modernização e sucumbiu a rebeldes tradicionalistas, que queriam a volta dos antigos costumes. O futebol, representante da modernidade, acabou minado pelo novo poder.
A América do Sul também tem exemplos de apropriação do esporte como propaganda política, notadamente representada pelos regimes ditatoriais da Argentina e do Brasil nos anos 70.
A Argentina explorou o futebol como símbolo da força nacional gerada pela ditadura, principalmente com a conquista da Copa do Mundo de 1978, sediada no país.
No caso brasileiro, o presidente Médici, considerado um dos militares mais radicais do período ditatorial, era fanático por futebol. Para sustentar o regime, utilizava a propaganda para passar a impressão de um país imbatível, dentro e fora do campo, e fomentar o nacionalismo.
A vitória da Seleção Brasileira na Copa de 1970, no México, foi o grande trunfo da ditadura. O tão proclamado hino do tri, “Pra frente Brasil, salve a Seleção”, se eternizou.
Deu forma à estratégia ufanista que despertou o sentimento de inferioridade dos brasileiros, que até hoje acreditam que “o Brasil só dá certo no futebol”.
Como bem definiu Nelson Rodrigues, é a famosa síndrome de vira-latas, amenizada somente por um par de chuteiras e uma bola nos pés.
Por Denise Teixeira
Esporte e política já foram tema de outras postagens do RB: Lula x Alckmin, Preconceitos no esporte e Futebol em Honduras
- Postado por: Breiller Pires às 15h42
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