COMO O ESPORTE GIRA EM TORNO DO MUNDO

As cores do espírito esportivo
Como a esfera política contribuiu para instituir intolerâncias e preconceitos no esporte

Jogos Olímpicos, Berlim, 1936. O norte-americano Jesse Owens faturava quatro medalhas de ouro nas provas de atletismo. Façanha que extrapolou a raia e ganharia, mais tarde, contornos épicos.
Hitler, anfitrião do evento, no auge do regime nazista alemão, se recusou a cumprimentar Owens pelo feito, assim como fizera com outros atletas negros da delegação dos EUA que também ganharam medalha.
Anos depois, Owens não se vangloriava por ter afrontado o racismo de Hitler em plenos domínios do ditador. Na verdade, se ressentia pelo fato de os EUA também abrigar o preconceito. Nem mesmo o próprio presidente do país à época, Delano Roosevelt, fez questão de cumprimentá-lo.
“O esporte impõe uma aparente contradição. Ao invés de congregar diferentes povos, como manda sua essência, acaba abrindo espaço para a expressão de diversos preconceitos”, afirma o sociólogo e historiador, Hilário Franco Júnior.
Pouco mais de uma década antes das Olimpíadas de Berlim, se desenrolava, no Brasil, outra polêmica que envolveria a explosiva mistura entre esporte, política e racismo.
Em 1923, o Vasco sagrava-se campeão estadual do Rio de Janeiro pela primeira vez. Um time formado basicamente por negros e operários. Alegando que os atletas do Vasco atuavam como profissionais – o que não era admitido à época –, os outros clubes cariocas fundaram a Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA), que seria responsável por organizar uma nova competição.
“O esporte, sobretudo o futebol, proporciona às camadas mais baixas da sociedade uma ascensão social meteórica, o que por si só já desencadeia inúmeras discriminações”, argumenta Hilário.
A AMEA só permitiria a filiação do Vasco caso o clube excluísse 12 jogadores de seu elenco – justamente os negros e mulatos. O Cruzmaltino resiste, disputa o Estadual de 1924 enfrentando apenas clubes de pequena expressão e leva o título novamente.
Já em 1925, o Vasco é finalmente admitido na AMEA, sem restrições. Desde então, o clube exalta a fama de ter sido aquele que acabou com o racismo no futebol brasileiro. Mas a resistência vascaína serviu mesmo para pôr fim ao preconceito ou apenas abriu as portas para o profissionalismo da bola no Brasil?
O que se vê mais adiante, na Copa do Mundo de 1950, realizada no Brasil, é que o preconceito racial no futebol tupiniquim estava longe de ser extinto. O fracasso da Seleção Brasileira diante do Uruguai, na final, logo apontou culpados: os “negrinhos” do time, dentre eles, talvez, o mais injustiçado... Barbosa, o goleiro.
“Nosso verdadeiro inimigo na Copa de 50 não foi o Uruguai, mas um racismo arraigado que crucificou os jogadores da defesa – quase todos negros – e nos obrigou a uma autoleitura como inferiores biológicos”, diz o sociólogo Roberto DaMatta, em seu livro “A bola corre mais que os homens”.

Nas Olimpíadas de 1968, no México, foi a vez de Tommie Smith e John Carlos utilizarem o esporte como forma de expressão contra o racismo. Ou pelo menos tentarem. Medalhistas de ouro e bronze, respectivamente, na prova dos 200m rasos, no atletismo, subiram ao pódio descalços, com os punhos cerrados para o alto.
Aquela era a saudação dos Panteras Negras, grupo que defendia os direitos e a liberdade dos negros nos EUA. Pelo ato de protesto no pódio, Tommie e John foram expulsos da delegação norte-americana, uma exigência do Comitê Olímpico Internacional.
A entidade alegou que não eram permitidas manifestações políticas durante os Jogos. Regras que deveriam valer também em 1936, quando Hitler e os atletas alemães que chegavam ao pódio se cumprimentavam com a saudação nazista. E não valeram.
Quando a esfera política que atua no esporte deveria se valer de seu poder para coibir o racismo e outros preconceitos, como defende Hilário Franco Júnior, ela prefere omitir, dentro de suas próprias regras e determinações, o que o esporte tem como princípio fundamental: a congregação dos povos.
“É preciso investir em educação e conscientização, tanto na formação de atletas quanto de torcedores, conscientes da igualdade dos cidadãos, do respeito aos direitos de cada um, independentemente de cor, gênero, sexo ou crença”.
- Postado por: Breiller Pires às 01h23
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