PEQUENO GRANDE ENSAIO SOBRE A COPA-2014
Megaevento, hipocrisia e o malandro brasileiro
Se uma pessoa quiser angariar boas doses do meu desprezo, basta dizer que é terminantemente contra a realização de Pan-americanos, Olimpíadas e Copas do Mundo no Brasil, “porque este é um país corrupto, da roubalheira e da impunidade, e temos muitos outros problemas para resolver, e é inadmissível gastar dinheiro público com estádios e não sei mais o que, ao invés de investi-lo em hospitais, escolas e universidades”.
Fico revoltado com isso. E uso a educação como exemplo para explicar essa revolta, meu desacato à hipocrisia infundada.
Estudo numa universidade pública, bancada, evidentemente, por verbas públicas, tal como a Copa do Mundo de 2014 ou uma possível Olimpíada em 2016. Nessa universidade pública, boa parte – eu disse, BOA PARTE – dos alunos não cumpre o cronograma previsto do seu curso. Ou seja, não se forma no tempo previsto!
Salvo alguns casos de “intercambistas de fato” – aqueles que vão estudar um tempo em outra universidade, não aqueles que vão para passear, passar o tempo ou marginalizar seu trabalho a troco de alguns dólares e um ‘improve’ no seu inglês -, BOA PARTE não se forma no tempo previsto por malandragem ou por benefício próprio.
Trocam horas/aula pelos bares ao redor da universidade ou por um troquinho extra, através de algum estágio remunerado que estrangule seu horário – o que seria até aceitável, caso BOA PARTE dos alunos de universidades públicas do Brasil não fosse proveniente das classes A/B.
Se apóiam na brecha, no precedente aberto pela própria universidade, que permite ao aluno estender sua vida acadêmica além da cota prevista para o término do seu curso.
Onde eu quero chegar com esse papinho marxista?
A brecha que permite a um estudante apodrecer na ociosidade à base de dinheiro público é a mesma que permite a extrapolação de orçamento em um Pan-americano, a mesquinha barganha política na escolha das cidades-sede da Copa do Mundo. É a brecha que representa um patrimônio nacional do qual muita gente ainda se orgulha e exalta como sinônimo de status: a famosa malandragem brasileira.
Pois, à concepção da metáfora, um estudante de universidade pública que extrapola sua cota está, na verdade, extrapolando o orçamento público, dando a mínima para a grana revertida de impostos aplicada em sua formação acadêmica. 
Da mesma forma que políticos extrapolam orçamentos, da mesma forma que empresas privadas extrapolam e superfaturam licitações, da mesma forma que o povo dá seu jeitinho brasileiro de usufruir de alguma brecha. O precedente das universidades públicas e seus pupilos infecundos é só um exemplo.
Há outras tantas brechas arraigadas por aí. Feridas abertas de um Brasil (quase) sem lei. Nossos políticos são corruptos, sim. Mas, é triste dizer, nosso povo também.
É por isso que a hipocrisia de quem atira pedras sobre a Copa do Mundo de 2014, ou sobre qualquer pretensão brasileira de receber qualquer megaevento esportivo, é, em BOA PARTE dos casos, burra e cega.
Não entende que a culpa das mazelas tupiniquins é das pessoas, da índole fraudulenta e da gana intempestiva de sempre tirar proveito das coisas, e não da reforma do Maracanã, que vai custar milhões aos cofres públicos para bem receber a Copa. E não enxerga, sobretudo, o Brasil hospitaleiro e acolhedor, o Brasil empreendedor, o Brasil sem brechas nem classe intelectual em vacância, o Brasil do trabalho... O Brasil que dá certo.
Ainda que BOA PARTE torça contra e faça da vida uma tremenda picaretagem, uma nação não pode carregar para sempre o fardo do atraso e da mediocridade de sua classe representativa, de seus atores políticos. Que, convenhamos, é mero reflexo do povo e de suas práticas. E só vamos abrir nossos olhos quando começarmos a projetar a vista para o próprio telhado, observar ao redor.
O que corrompe o Brasil não é uma Copa do Mundo, não é a marca de país da floresta, do carnaval e do futebol. É a falta de senso crítico e autocrítico do brasileiro. A incapacidade de pensar que corrupção e incompetência políticas são apenas o espelho do seu jeito malandro de tirar proveito de tudo, até mesmo de bens que já o pertencem e ele sequer toma nota.
E o país do futebol, para muitos, não é digno de receber nem mesmo o maior evento da bola. Somos capazes do que, então, meu Deus? É, cada um tem o Brasil que merece.
- Postado por: Breiller Pires às 11h48
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