Futebol, fé e religião

Há quem diga que futebol e religião não se discute. Mas por que não discutir as duas coisas?
Mesmo porque, desde sempre, futebol e religião fazem uma tabelinha das mais intrigantes, se relacionando de maneira bem peculiar.
Ambas as formas de manifestação envolvem altas doses de devoção, fanatismo e crença. Na religião, o templo é a igreja e os seguidores são os fiéis, enquanto que, no futebol, estádio e torcedores compõem o espetáculo.
Até hoje, futebol e religião são considerados por aristocratas, burgueses e intelectuais pós-modernos os maiores ópios do povo, instrumentos de manipulação e alienação das massas.
No universo da bola, muitos dizem que o seu time não é uma paixão, mas sim uma religião. De fato, time que é time não sobe ao gramado sem antes fazer a tradicional corrente de fé no túnel do vestiário e rezar um “Pai Nosso”.
E o time, como se não bastasse, ainda tem o seu santo padroeiro ou simpatizante. São Jorge, no caso do Corinthians, São Judas Tadeu, para o Flamengo, São Paulo, para o clube homônimo, e São Januário, no Vasco da Gama.
Vasco, por sinal, que mantém uma capela em homenagem à padroeira Nossa Senhora das Vitórias dentro de seu estádio e preserva a tradição de não abrir as portas em feriados santos. Apesar de, este ano, o técnico Dorival Júnior ignorar o costume religioso e não dar folga aos atletas na sexta-feira santa.
No time, também, costumam jogar vários “atletas de cristo”. Aqueles que, a exemplo de Kaká, ao comemorar um gol, se ajoelham no gramado, estendem as duas mãos apontando para o céu e retribuem com um sonoro “Obrigado, Senhor!” à graça alcançada.
O torcedor, que não precisa ser corintiano para ser fiel, ainda vê, em muitos casos, seu time mergulhado em conflitos e imbróglios relativos à religião. 
A guerra declarada na Escócia entre torcedores do Celtic, católicos, e do Rangers, protestantes; a identificação dos judeus com o Tottenham e o Ajax; a cruz de Sant Jordi estampada no escudo do Barcelona.
Não faltam exemplos para demonstrar os diversos contextos em que futebol e religião se interrelacionam. Pois, como todos sabem, o ídolo no futebol é a representação de Deus na Terra.
Maradona, que se utilizou da mão de Deus para bater a Inglaterra na Copa de 1986, e Pelé, o Rei que incorporava poderes divinos com a bola no pé, podem ser considerados deuses do futebol.
Nem precisa de tanta grandeza para merecer a distinção. Um célebre baixinho, também conhecido como “O Deus da pequena área”, não hesitou em romper a frágil barreira que separa bola e fé:
“Rei tem dois, três, quatro, cinco... Mas, Deus, agora eles sabem quem é. Eu sou Romário, eu sou Deus”. E, pelos caminhos do relvado, a crendice popular se reacendia mais uma vez.
- Postado por: Breiller Pires às 22h09
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